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CAMÕES
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Camões, o Gênio Peregrino Apesar da liberdade de costumes em que se vivia na Índia, os cinco nobres portugueses convidados por Luís de Camões para um banquete em sua casa, em Goa, devem ter-se surpreendido em serem servidos com pratos cheios de folhas manuscritas de poesias em vez das iguarias que eles estavam esperando. Desta maneira, com humor e uma nota de tristeza, Camões, nobre, soldado e poeta, anunciou aos seus compatriotas colônias na Ásia, o deplorável estado de suas próprias finanças.
Este é um dos poucos episódios da vida atribulada do poeta português que pode ser considerado como real. No seu tempo foram poucas as notas ou observações que se escreveram a seu respeito. Mesmo quando em 1572, sete anos antes de sua morte, teve publicado com os favores reais Os Lusíadas, nem a obra continha qualquer nota biográfica de seu autor, nem tampouco, nos documentos da época, forma encontradas referências sobre o homem que mais tarde e pelos séculos afora passou a ser considerado o Príncipe dos Poetas Portugueses. Os documentos encontrados sobre ele no Arquivo Nacional são apenas oito. Mesmo com estes papéis referentes às suas ligações com o governo não é possível apurar com exatidão a data de seu nascimento, onde ocorreu, e saber se sua mãe, a D. Ana de Miranda, morreu no parto. Mas se houver algum artista que por sua obra sobreviveu à morte, este foi Camões. Através de seus sonetos, cartas, comentários, a sua poesia lírica, e finalmente o grande poema épico Os Lusíadas, os estudiosos reconstituíram a sua vida. Uma reconstituição, em muitos casos, revestida de imaginação e admiração. O lirismo repleto de imagens poéticas do Renascimento torna o trabalho de identificar um personagem numa poesia uma tarefa difícil, daí até hoje debaterem os camonianos se o poeta teve a grande paixão de sua vida por D. Catarina de Ataíde, pela Infanta D. Maria, por D. Francisca de Aragão, ou até mesmo por uma irmã de caridade, a quem eele idolatrava em seus versos da maneira mais platônica:
Todas as referências feitas a ele por seus contemporâneos em livros o foram posteriores à sua morte. O nascimento do primeiro filho do fidalgo Simão Vaz de Camões deve ter-se dado em 1524 ou 1525, a acreditar-se no documento referente ao engajamento de Camões como soldado de uma armada que em 1553 partiu para a Índia. Sua infância foi passada em Coimbra, o grande centro cultural de Portugal, onde seu pai morreu quando ele ainda era menino. Neste centro de cultura, graças ao seu tio D. Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz, onde uma das mais completas bibliotecas da época era conservada, sua cultura clássica pode abranger desde os poetas latinos até aos filósofos gregos. Dante e Petrarca eram os seus autores prediletos. A Geografia, a História Antiga, tanto dos romanos e gregos quanto dos povos da Península Ibérica, a Astronomia e as artes militares, tudo ele conhecia e, mais do que conhecia, as tinha sempre em mente, pois é quase certo que as paráfrases a versos latinos, feitas na Ásia e na África, foram feitas de memória. Era muito pouco provável que os preciosos livros da época andassem na bagagem do pobre soldado endividado que, apesar da nobreza de sua família, ele foi nos 17 anos de afastamento de sua pátria. Mas a vida de Camões não foi só o estudo. Em Coimbra, mesmo quando contava ainda menos de 20 anos, misturava os prazeres do espírito com os do corpo. Autores portugueses afirmam que nessa época o poeta aprendeu a arte de conquistar os corações das damas, tornando-se ainda mais invejado pelos fidalgos que apesar de terem tornando-se ainda mais invejado pelos fidalgos que apesar de terem fortuna não tinha o seu sucesso com as belas damas da corte. Sua ida para a corte é outro episódio de sua vida cercado de mistério e em torno do qual existem as mais controvertidas hipóteses. O único fato que se pode ter como certo é que Camões, antes de concluir o seu período completo de estudos na Universidade de Coimbra, transferiu-se para Lisboa. A nobreza se seus pais garantiu-lhe um lugar na corte de D. João III, onde, em versos apaixonados, ele saudava a uma beleza loura, de olhos claros. Durante o dia exercia, ao que parece, as funções de preceptor do filho dos condes Linhares, os que parece, as funções de preceptor do filho dos Condes Linhares, os quais durante toda a sua vida aparecem como seus resolutos protetores. Camões devia ter 24 anos. Seu vigor de jovem e interesse pelas letras o devem ter levado a participar de intrigas que por sua vez possivelmente acabaram por conduzir Camões à sua vida errante, dando a ele os elementos para que pudesse escrever a sua obra-prima. Lembrando esta época turbulenta Camões escreveu mais tarde:
Por volta de 1549 Camões foi desterrado para o Ribatejo. Tudo que escreveu lá denuncia um amor mal sucedido como a causa do seu afastamento do Palácio, talvez mesmo por iniciativa de sua própria amada:
queixava-se ele em seu soneto CCLXIII. O seu exílio foi passado parte em Belver, no Ribatejo, e, segundo supõem os historiadores, mediante um favor real, conseguiu transferir-se para Ceuta, no Marrocos, um posto avançado contra os mouros que ainda assediavam a Península Ibérica. Foi numa refrega contra eles que Camões perdeu o olho direito, passando a ser representado assim me todos os seus retratos conhecidos. No dia 16 de julho de 1552 sua sorte foi definitivamente selada. Após regressar do exílio na África, o poeta já não encontrou em Lisboa os amigos do passado. Era um homem marcado a quem ninguém devia deferências. Nesse dia era realizada a procissão de Corpus Christi, e por um motivo desconhecido Camões desentendeu-se com um moço da Cassa Real, Gonçalo Borges, ferindo-o gravemente numa luta de espadas. Foi preso imediatamente e ficou recolhido ao cárcere da cidade durante nove meses, enquanto o seu adversário recuperava-se lentamente. Finalmente Goçalo Borges, "são e sem aleijão", decidiu perdoá-lo, sendo então concedida pelo rei, no dia 7 de março de 1553, uma carta de perdão ao poeta, que lhe poupava à sua justiça, exigindo apenas o pagamento de quatro mil réis "por piedade". Em março de 1553, na qualidade de simples soldado na armada de Fernando Álvares Cabral (filho do descobridor no Brasil), Camões embarcou para Goa, onde chegou em setembro. Nos sete meses que passou no mar viu sucederem-se calmarias nas costas da África, tempestades no Índico, conheceu aldeias de selvagens e civilizações estranhas. Isto tudo deu a Camões a matéria-prima que iria usar nas cenas marítimas de Os Lusíadas, que impressionam por sua intensidade. O tempo da permanência dos soldados nas Índias era normalmente de três anos. Todavia parece que o governador Francisco Barreto, amigo de Camões, que estava em Goa em 1555, lhe permitiu passar à condição de civil, nomeando-o Provedor-Mor dos Defuntos e Ausentes, em Macau, na China. Camões, porém, mesmo assim, não parecia bem sucedido do ponto de vista financeiro. Fez representar sua comédia Filodemo, em Goa, e, manifestando a sua opinião sobre a vida que levavam nobres e plebeus na Índia, disse: "a Índia é mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados". No seu soneto CXCIV atacava ainda mais:
Antes de assumir o seu posto em Macau, Camões participou de várias campanhas militares, atacou beduínos na Arábia, participo de batalhas contra nativos revoltados com os portugueses, esteve em expedições no Vetname e Malaca, atividades bélicas que soube descrever em seu poema, tirando delas conclusões que hoje ainda continuam válidas:
Apesar de sua formação universitária, na época um fato verdadeiramente raro, Camões preocupou-se em acentuar o valor que dava ao "saber de experiência fito". Os Lusíadas nunca poderia ter sido escrito por um intelectual de gabinete. ao longo de seus versos fica sempre claro que seu autor foi um homem que teve "nu'a mão sempre a espada e noutra a pena". O que descreve, ele próprio o viu e experimentou. "Não me falta na vida honesto estudo / Com longa experiência misturado." A fúria do mar, o exotismo das terras e das gentes, distantes, os horrores e as incertezas da guerra, a fauna e a flora da África e do Oriente, a História de Portugal e os feitos dos portugueses na Ásia são descritos com base em matéria histórica recente. Embora os pesquisadores admitam que a idéia de escrever Os Lusíadas tivesse ocorrido a Camões ainda em Portugal (havendo para prova um poema dirigido ao Conde de Lihares onde dizia "Que quando tempo for, de melhor modo / Há de me ouvir por vós o mundo do todo"), não resta dúvida que a maior parte dos 10 cantos que o integram foram compostos nos 17 anos em que ele vagou pela Ásia. Conta a lenda que no tempo em que permaneceu em Macau, como Provedor-Mor dos Defuntos e Ausentes, Camões dirigia-se para uma gruta à beira-mar, onde, ao lado de sua amada chinesa, Dinamene, escrevia dia após dia os versos de Os Lusíadas. A topografia da gruta parece, porém, desmentir a versão dalenda. Hoje ele é um dos pontos turísticos de Macau. É extremamente pequena, quase uma fenda na rocha, freqüentemente salpicada pela águas das marés mais altas, sendo dificilmente um lugar onde Camões pudesse permanecer tanto tempo. A gestão exercida por Camões sobre os bens dos defuntos e ausentes não foi considerada eficiente e, cerca de um ano após sua chegada a Macau, foi destituído do cargo por um governador itinerante, e mandado sob custódia para Goa, onde deveria ser julgado. Novamente aqui a lenda se confunde com a realidade. A nau em que Camões foi enviado soçobrou no delta do Rio Mecong e, em meio à confusão reinante, a chinesinha Dinamene morreu afogada . Camões pode, contudo, salvar o seu poema, o canto que molhado vem do naufrágio e miserado". Conta a lenda que nadando apenas com um braço e com o outro estendido acima das ondas o poeta conseguiu chegar ao litoral. Quando aportou a Goa teve a surpresa de constatar que o governador não esteve entre os seus amigos. Conseguiu, porém, adiar o seu julgamento até à nomeação de Francisco Barreto para o cargo de Vice-Rei da Índia. Com o amigo obteve o perdão, a reintegração no seu posto antigo e ainda uma nomeação para feitor em Chaul. Nessa época um tela de Fios-Secos o prendeu por dívidas, levando Camões a dirigir um poema humorística ao Vice-Rei pedindo o seu auxílio. Os últimos anos antes do regresso a Portugal forma os mais difíceis na sua vida. "Agora com pobreza avorrecida / Por hospícios alheios degridado." Foi nessa ocasião, ainda em Goa, que ocorreu o epsodio do banquete de versos. Em 1567, finalmente, Camões partiu da Índia rumo a Portugal. Com o capitão de uma nau conseguiu passagem gratuita até Moçambique, onde esperava encontrar o seu amigo e protetor Francisco Barreto, recém-nomeado para governar a África Oriental. Barreto, porém, morreria quando chefiava uma expedição no interior da África. A situação de Camões tornou-se a pior possível. Que o encontrou assim foi o historiador Diogo Couto, que faz referências ao caso em suas Décadas das Índias: "Em Moçambique achamos aquele Príncipe dos Poetas, Luís de Camões, tão pobre, que comia de amigos e, para se embarcar para o reino, lhe ajuntamos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer. E aquele inverno, que esteve em Moçambique, acabando de aperfeiçoar as suas Lusíadas para as imprimir, foi escrevendo muito em um livro, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição doutrina e filosofia, o qual lhe furtaram. E nunca pude saber, no reino, dele, por muito que inquiri. E foi notável." Com Diogo do Couto, Camões voltou a Lisboa, chegando por ocasião da grande peste que dizimou a população entre 1568 e 1569. A sua grande amada, causa de tantas peripécias em sua vida, havia morrido cedo, ao 25 anos, quando Camões ainda estava em Macau. Em homenagem a ela compôs o soneto famoso que diz:
Em Lisboa, Camões visitou a sepultura dela e mais uma vez lamentou a sua morte: "Perfeita formosura em tenra idade, / Qual flor que antecipada colhida / Murchada está da mão da morte dura." Nessa mesma ocasião Camões iniciou os seu esforços no sentido de publicar Os Lusíadas. Depois de polir mais o poema tirou dele uma cópia especial para dedicá-lo ao Rei D. Sebastião. O portador do poema já que, ao que parece, Camões já não tinha acesso à corte foi o seu amigo de juventude D. Manuel de Portugal. O soberano recebeu com agrado a oferta, e, talvez por isso, o frei dominicano Bartolomeu Ferreira, encarregado pelo Santo Ofício da censura eclesiástica, não criou problemas para o poeta, embora em Os Lusíadas sobejem as divindades pagãs, misturando-se ao maravilhoso cristão. Sobre esse assunto delicado Frei Bartolomeu comentou em seu despacho favorável: "Como isto é poesia estilo poético, não tivemos por inconveniente ir esta fábula na Obra. E por isso me parece o livro digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas." Um alvará régio de setembro de 1571 concedeu a licença de impressão e garantiu a Camões direitos autorais por dez anos. Em 1572, o poema foi publicado e o rei decidiu conceder uma teça uma pensão ao seu autor, no montante de 15 mil réis ao ano quantidade pequena em relação a outras pensões concedidas pelo rei naquela época. Mesmo assim comprovando que o valor de Os Lusíadas ainda não tinha sido percebido, no decreto real são apresentadas como justificativas para sua concessão os serviços que Camões havia prestado na Índia, às informações que D. Sebastião tinha "Sobre o seu engenho e habilidade" e ainda "à suficiência que mostrou no livro que fez das coisas da Índia". Os últimos anos da vida de Camões são reconstituídos praticamente à base de suposições. As tenças concedidas pelo rei eram pagas com atraso, e isto, tendo em vista a sua exigüidade, deveria tornar em dificuldades maiores para Camões. O historiador Diogo do Couto, em suas Décadas, sobre o assunto diz apenas que "em Portugal morreu este excelente poeta em pura pobreza". Sabe-se que de 1579 a 1581 houve uma nova peste em Lisboa, numa repetição da epidemia ocorrida 10 anos antes. Os atingidos pela doença morriam em quatro ou cinco dias. A morte de Camões ocorreu no dia 10 de junho de 1580. Em meio à confusão que reinava na cidade, com o acúmulo de cadáveres a serem sepultados, ele foi apenas envolvido numa mortalha e lançado, juntamente com outros cadáveres, no carneiro da Igreja de Santa Ana. O terremoto de 1755 destruiu a igreja e misturou ainda mais as ossadas que sob ela jaziam. Em 1880 todos os restos mortais que estavam no local foram levados para o Panteão dos Jerônimos, onde foram sepultados na esperança de que entre eles estivesse os ossos do maior poeta português. O destino de Os Lusíadas e das demais obras de Camões foi mais feliz do que o de seu autor. O poema foi traduzido em inglês, italiano, alemão, espanhol, polonês, dinamarquês, sueco, húngaro, russo, siciliano, grego, árabe, armênio e hebraico. Foi feita inclusive uma tradução para o latim. Nos colégios de todos os países de língua portuguesa o testo de Os Lusíadas é usado para o aprimoramento lingüístico dos estudantes. Entre os grandes admiradores de Camões na literatura e na cultura universal estão Elizabeth Barrett, que dedicou um tradução de seus versos a Robert Browning; Byron, que o chamou de "gênio peregrino', Boltaire, Humboldt e, inclusive, Cervantes, seu contemporâneo, que referindo-se a Os Lusíadas, o chamou de "tesouro luso". A influência de Camões varou os séculos. Ele foi o grande estruturado da língua portuguesa, que graças a ele pode demonstrar a sua capacidade descritiva. Gerações e gerações de poetas e escritores foram influenciadas por seu estilo. Os Lusíadas tem hoje um lugar de destaque na literatura universal, porém, o seu valor maior foi o de retirar das páginas frias da História para incorporar à própria vida dos portugueses o relato de feitos heróicos dos navegadores daquela pequena nação ibérica que escrevia então, sozinha, as primeiras páginas da História do Mundo Moderno. Este relato viria a servir muitas vezes mais tarde para consolidar o espírito nacional nas ocasiões de cris. Os Lusíadas leva a todos uma mensagem de esperança e de exaltação ao que há de mais glorioso na história de um povo a universalização de sua cultura. |